Gliding Barnacles
Turismo Centro de PortugalPraia do Cabedelo, Figueira da FozSetembro 2026

Fui ao Cabedelo a contar com um festival de surf. Encontrei outra coisa: uma praia inteira a olhar para o mar sem querer saber quem era o melhor.
Foi a minha primeira vez no Gliding Barnacles. Um dia chegou para perceber porque é que tanta gente volta.
- Cliente
- Turismo Centro de Portugal
- Onde
- Praia do Cabedelo, Figueira da Foz
A ponta da cidade
Cheguei sem saber o que ia encontrar.
O Cabedelo fica onde a Figueira acaba. Um pedaço de areia entre o rio e o mar, daqueles sítios a que só se vai de propósito.
Em 2014, alguém achou que este era o lugar certo para aproximar o oceano da cidade. Treze edições depois, chega aqui gente do mundo inteiro — e a praia continua a parecer a mesma: aberta, sem pressa, com espaço para todos.













A dança
Aqui não há juízes. Não há pontuações. Ninguém ganha.
Só entram longboards, de uma quilha só, como as de antigamente. E surfa-se pela beleza do gesto: um pé que avança devagar até à ponta da prancha, um corpo que se equilibra como se a onda fosse chão firme.
Habituei-me a fotografar desporto à procura do momento decisivo — o golo, a meta, o festejo. Aqui não há nenhum. Há uma onda, alguém em cima dela, e o tempo que aquilo durar.















A plateia
Vieram só para ver alguém dançar sobre a água.
No paredão, filas de cadeiras viradas para o mar. Ninguém está ali à espera de um resultado. Estão a ver, e chega.
Dei por mim a fotografar mais quem olhava do que quem surfava. Há qualquer coisa de raro numa multidão em silêncio, de costas para tudo o resto.


















As pessoas
O que me ficou não foram as ondas. Foi quem lá estava.
Foi o que mais me surpreendeu. Gente de todas as idades, de todos os feitios, vinda de quarenta países. Miúdos com a prancha maior do que eles. Gente de cabelo branco a sair da água a rir. Famílias inteiras, amigos que só se vêem aqui, uma vez por ano.
Não havia um tipo de pessoa. Havia todos. E ninguém parecia estar no sítio errado.
Ao fim de umas horas percebi que já não me sentia um estranho com uma câmara. Sentia-me convidado.











As mãos
Tudo aqui é feito por alguém.
A arte está espalhada pela areia, sem cordão à volta. Há quem pinte, quem construa, quem cozinhe. Há pranchas que são peças, e peças que acabam por ir ao mar.
O festival cabe nisto: coisas feitas à mão, por gente que gosta do que faz.







O fim da tarde
O surf, afinal, não é sobre as ondas.
Quando a luz baixa, a música começa junto ao molhe. Quem estava na água vem para a areia, ainda com sal na pele. Ninguém tem pressa de ir embora.
Há coisas que não cabem numa fotografia — o sal no ar, o som, o cheiro a mar. Tentei guardá-las na mesma.
O surf, afinal, não é sobre as ondas. É sobre o que acontece entre elas.
Obrigado, Figueira. Até para o ano.






